Brazil South America

El lutador

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agosto 23, 2018

O lugar é apertado, mal dá para se mexer. Na parede há várias medalhas suspensas por um prego e, ao lado, igualmente pendurada, uma corda de pular se mistura a outros objetos. Próximo à porta, disputando espaço com o notebook, a tevê transmite o longa-metragem “Encurralados”. Um troféu dourado e reluzente repousa no sofá, em cuja base está escrito: “Campeão de Muay Thai”. O lutador Jerônimo Bisneto Budal Costa reagiu com um sorriso acanhado ao mostrar seu quarto para esta entrevista. Engatou a conversa com um fiapo de voz até que, de repente, sem precisar de incentivo, começou a contar sobre sua paixão pela arte marcial tailandesa.

Voador, como prefere ser chamado, tem 24 anos, é moreno, tem olhos castanhos e lábios volumosos.  É calmo, de poucas palavras. Diz pesar 73 quilos e medir “entre 1,69 e 1,70 de altura”, mas parece mais baixo. Tem a cabeça raspada, mantida impecável com uma máquina zero. É filho caçula de uma família de dois irmãos.

O ciclo de conquistas do Voador, recém descoberto nas artes marciais, foi majoritariamente no muay thai, onde acumula nove vitórias e duas fragorosas derrotas. Isso porque, se ele tivesse seguido à risca as sugestões de seu treinador, que gritava incentivos que pareciam não chegar ao tatame, como “Chuta! Chuta nas pernas dele! Na cabeça!”, enquanto Voador continuava a socar o adversário sem dar ouvidos aos palpites, a história poderia ter sido outra.  “Ele falou para não chutar na costela, eu chutei”, lembra Voador. Por esse deslize, pagou caro. “O adversário segurou na minha perna e me levou para o chão”, completa.

Atrás de mim, recostada ao sofá, a mãe do atleta ouve a nossa conversa. Ela conta que a primeira derrota do filho no ringue a deixou insegura, traumatizada.  Ver o caçula levando socos e chutes, só esperando o tempo determinado para o fim do round, é um dos piores cenários. Ela admite que perdeu algumas noites de sono por causa do filho. “Ninguém dorme. Todo mundo fica preocupado, pensando nele”, comenta ela, em tom humorado. Dona Maria também diz que só se tranquiliza quando Voador liga para avisá-la do resultado. “Se a luta é às três horas da tarde, enviamos mensagens às cinco para ver como ele está”, conta.

Como um grande lutador não se rende na primeira derrota, Voador lançou-se em um novo desafio, aceitando de pronto o convite para uma luta experimental de MMA – as Artes Marciais Mistas. O combate nesse tipo de luta é mais sofrível. A modalidade tem base no boxe e permite chutes, joelhadas e outros golpes de esguichar sangue. A primeira e única luta dele no MMA não ficou do seu agrado. Voador acredita que as condições naquele dia não estavam favoráveis. “Fui lutar, mas o adversário passou mal. Então lutei com outro, com dez quilos a mais”, justifica.

Hoje, falar das vitórias, com todas as letras, é fácil. Mas as competições e o treino consomem tanta energia que fica difícil sustentar a força atlética sem o acompanhamento adequado de um profissional. Ironicamente, falta-lhe no currículo apoiadores. “Qual o nome daquele cara que cuida certinho da alimentação?”, indagou. Nutricionista, respondi.

Voador parece não se abalar com as dificuldades, o que faz sentido, pois mostra uma paixão impetuosa de enfrentar os obstáculos da vida com golpes poderosos. O que provavelmente ainda vai lhe render muitas vitórias.

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