Brazil South America

Pregas de seda

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julho 11, 2018

Não fosse a câmera armada à sua frente, na hora da pose e no momento do clique, dona Zebina Costa não estaria tão desconfiada. No primeiro momento da conversa, Zebina fitou a câmera com aquele olhar de “isso não vai dar certo” e perguntou com sua voz cativante: “O que é isso?!” “Calma, faça de conta que não estou aqui”, respondi.

Zebina é uma mulher de cabelos brancos e emaranhados, presos por um feixe de fios puxados para trás com ajuda de quatro grampos — não os de borboleta, mas daqueles de arame. Ela é uma mulher franzina, baixa e curvada para frente. Sua pele, de tão seca e enrugada, parece pregas de seda. Do rosto da velha senhora parte uma verruga e um fio branco e solitário ao lado esquerdo do nariz — mais abaixo, passando entre a boca e a bochecha. Seus olhos são levemente contraídos, resultado de uma catarata recente. Numa tarde ensolarada de verão, não parecia ter 91 anos e se movia com naturalidade e persistência de uma garota jovem.

Ela continuou desconfiada com a câmera mordaz apontada para ela, mas revelou histórias curiosas sobre o bairro Areias Pequenas — em Araquari, município da região Norte de Santa Catarina —, localidade em que morou até os 86 anos. Dona Bibi, como é conhecida pelos amigos, conta que a vida no bairro era simples, entre a roça e o ditado “Deus ajuda quem cedo madruga”. Na época, um morador da cidade grande poderia facilmente encontrar na região sossego suficiente para entoar cânticos budistas. E põe sossego nisso: “Era uma paz, meu filho”, lembra.

Dona Zebina conta que na infância viveu numa casa sem qualquer luxo, feita de taipa e inserida em meio à natureza. A cozinha, com fogão a lenha, era uma panela suspensa por uma corda que ia do teto ao chão. “O senhor não vai acreditar…”, ela começa, e daí segue: “a gente ‘enganchava’ a chaleira ou a panela com dois ganchos sobre o fogo no chão”, conta, mantendo um sorriso tímido para a câmera. “Assim se fazia o café, sem coador”, completa.

Enquanto trocávamos dedos de prosa, volta e meia se ouvia o canário de dona Zebina cantar. Do pobre do animal, preso entre a uns tantos filetes de bambu da gaiola, não se podia dizer se cantava em sustenido ou bemol. No ar, relativamente parado, nenhum outro passarinho se arriscava a cantar em resposta. Parecia que o galego assobiava na vã esperança de ser ouvido ou de escutar algum sinal fora dali.

Voltamos. Há quem diga que a abundância de espaços verdes, tranquilidade e clima de cidadezinha de interior sejam motivos para amar e viver em Araquari. E, claro, há também aqueles que sugerem que a simplicidade dos moradores seja pretexto para tanto zelo. A resposta mais pontual, quase sempre é de que um feitiço vindo das profundezas da terra levaria os visitantes fixarem residência na cidade — para nunca mais sair. Dona Zebina, provavelmente, foi uma dessas moradoras que tomou de tal poção mágica, ou seja: da boa e velha bica d’água conhecida como Carioca. “A gente saia da escola e ia lá tomar água”, recorda, entusiasmada. “E quando faltava água em casa, por mais pesado que fosse, levávamos em baldes”, conclui.

A voz áspera e rascante de Zebina prossegue contando toda a sua história. Enquanto a câmera paira por sobre seu rosto — o que ainda a deixa desconfortável, ela conta do envolvimento do pai com a família, descrevendo-o como um homem generoso que, além de trabalhar para o sustento próprio, “comprava carne no seu Antenor Sprotte para levar para os filhos.” E sua mãe foi uma “mulher muito querida”, dedicada à vida rural, de onde extraia todo sustento da casa.

Dona Zebina coça a cabeça, lança um olhar lânguido na direção da câmera a que dedicara tanto cuidado durante a entrevista e diz, logo após o último clique: “Ah, meu filho, eu não sou tão bonita para fotografia”.

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