Brazil South America

Sangue, equilíbrio e aventura

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agosto 24, 2018

Ficou decidido que Carmen iria primeiro, enquanto eu daria segurança. Daniel Casas, nosso instrutor, foi na frente para preparar a ancoragem. Tentei olhar para o topo do penhasco, mas o sol bloqueava a visão. A rocha era maior que as outras que eu tinha escalado, com metade de pontos de apoio para mãos e pés. Olhei mais uma vez para cima, Daniel gritou: “Ok, pode subir!”.

“Sim, eu consigo”, disse a mim mesmo.  Ajeitei a cadeirinha no quadril e fiz o nó oito. Para ter certeza que tinha feito direito, repeti em voz alta as lições básicas de segurança que havia aprendido no dia anterior. Só queria ter certeza de uma coisa: que estava fazendo a coisa certa.

Sabia que me esperavam cinquenta metros verticais pela frente. Inspirei fundo, enfiei a mão no saco de magnésio e toquei a primeira agarra na rocha. Pus o pé direito em uma pequena fenda e agarrei com as mãos uma outra; apoiei-me nelas, olhei para cima e continuei a subir – degrau a degrau.

À medida que galgava a rocha, retirava as ancoragens móveis. Precisava fazer tudo certo, porque, se eu caísse — coisa que tentava não pensar — , a corda esticaria a costura. Inspirei e enfiei a mão no saco de magnésio, dei mais dois curtos passos pela parede escorregaria e lancei-me para frente.

Foi o meu grande erro! Ao tentar segurar a agarra na rocha, perdi o equilíbrio e meu corpo caiu. Fiquei suspenso pela corda, indeciso entre continuar ou desistir. Estava cansado, não conseguia entender por quê. Levei o dobro do tempo para recuperar o fôlego, e além disso, meu dedo, ferido das escaladas anteriores, custava a cicatrizar.

Fechei os olhos na vã esperança de que, quando fosse abri-los, estaria na última ancoragem, mas vi que estava a vinte metros do chão, preso por uma corda na cintura — e não tinha a menor intenção de testar sua resistência. Parei e deixei meu corpo paralisado na lisa face da pedra, enquanto os raios de sol assombravam a minha cara, que ardia em fogo. Por mais que sentisse vontade de me mexer, não conseguia. Olhei para cima e vi Carmen, agora mais distante.

O instrutor finalmente gritou uma palavra de incentivo: “A sua esquerda há um apoio, agarre nele!” Eu estava a sessenta centímetros do pequeno relevo. “Eu não consigo!”, gritei. “Você consegue!”, ele retrucou. Concordei com um aceno de cabeça. A única maneira de sair da situação era enfiar a mão na agarra. Voltei e pensei no meu objetivo acima, que estava mais perto. Meu coração batia forte, as mãos suavam. Reparei nas minhas unhas, estavam sujas, da cor do carvão.

Enfiei as mãos novamente no saco de magnésio e voltei a agarrar as fendas e saliências da rocha, uma a uma. Desprendi o último cordelete; e o clickdo mosquetão na alça do rack da cadeirinha me fez sorrir. Na linha horizonte, à minha esquerda, fitei os espaços vazios existentes na ilha de São Francisco do Sul.

Apoiei-me numa última fenda, ataquei uma borda à esquerda e senti os relevos da rocha. Fiquei com um odor diferente nas mãos, era cheiro de rocha, suor e magnésio. O último esforço me levaria para a ancoragem.

Olhei mais uma vez para cima, faltava um passo. Agarrei em duas fendas, uma com a mão esquerda e outra com a mão direita. Pus o pé esquerdo à frente, apoiei-me na rocha. As unhas, cobertas de sujeira e sangue, continuavam incomodando.

Segurei na corda que me sustentava; apertei com a força. Sentia dor, não percebia de onde. As mãos ardiam, a respiração ofegante. Estava suado. Olhei para Daniel e para Carmem, eles sorriram e me cumprimentaram com um aperto de mão. Inspirei! Estava no topo da minha maior experiência.

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